Este espaço foi criado para divulgação de pequenas reflexões e para possíveis discussões. O título deste blog "As palavras ajudam a fazer o mundo social" é uma frase do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Esta ideia é muito importante pois o que fazemos com nossas palavras deve ser bem pensado, tem uma responsabilidade. O mundo é feito por nossas palavras.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Eduardo Galeano - El Derecho al Delirio
A ideia de que a a utopia pode não acontecer, mas é ela que nos faz caminhar é fundamental para seguirmos acreditando em um mundo melhor!
Mais um retorno

segunda-feira, 22 de novembro de 2010
A nova consciência democrática do povo, por Emir Sader

O enorme apoio do governo Lula vem, sobretudo, dos resultados das políticas sociais do governo. O apoio é tão generalizado (mais de 80% e apenas 3% de rejeição) que fica difícil distinguir diferenças por nível de renda ou de escolaridade, mas o resultado eleitoral permite ver como os setores de apoio mais firme - os que deram inequivocamente a vitória a Dilma - foram os de menor nível de renda. Visível também porque foram os apoios amplamente majoritários nas regiões com um peso predominante dos pobres – como o norte e o nordeste.
Uma das questões que se coloca é saber a que se deve a diferença entre o índice de apoio do governo e a votação da Dilma. Claro que o apoio ao governo tem matizes – do ótimo ao regular – e estes refletem disposição de transferência do voto a Dilma o apenas anuência diante das relações inegáveis do governo Lula.
Mas foi possível perceber que, colocados diante da comparação entre os governos Cardoso e Lula – ou diante da percepção do que viveram nos anos 90 e do que passaram a viver na primeira década deste século -, uma grande maioria de brasileiros opta pela continuidade e aprofundamento do governo Lula com Dilma. Foi diante dessa barreira que o candidato tucano buscou um atalho – buscar desviar o debate dessa comparação política para um tema como o aborto e seus desdobramentos religiosos, no circuito das igrejas.
Essa operação teve efeitos eleitorais, porque uma parte dos beneficiários das políticas sociais opta claramente pela continuação do governo Lula, representado pela Dilma, mas foi vítima dos preconceitos, explorados por religiosos.
Podemos dizer que o governo encontrou o modelo econômico social que o Brasil precisa para retomar o desenvolvimento e, ao mesmo tempo distribuir renda. Adequações são necessárias e já começaram a ser feitas ainda no governo Lula, para superar os efeitos negativos da taxa de juros alta e da valorização artificial do real. As políticas sociais terão não apenas que ser intensificadas, mas diversificadas e ampliadas, porém seu norte básico já está dado.
A oposição já demonstrou que não tem modelo alternativo. Oscilou entre reivindicar o atual como seu ou fazer criticas marginais. Entra agora em uma grande crise de identidade, com um pólo assumidamente direitista, que pretende personificar o neoliberalismo duro e puro, do Estado mínimo e do reino do mercado. Esse pólo se isolará cada vez mais, sem capacidade de incorporar políticas sociais e de conquistar bases populares de apoio, ficando restrito a setores ideológicos da classe média e grupos ruralistas. Já os tucanos ficam sem identidade, passarão por um longo processo de brigas internas, do qual não sairão tão cedo e marcados por muitas feridas.
A principal disputa na sociedade se dará no plano dos valores, da cultura, da luta ideológica. Porque a complexidade e o desenvolvimento desigual das relações sociais e também ideológicas fazem com que as pessoas comecem a tomar consciência social do mundo a partir de circunstancias concretas. Sentem a melhoria das suas condições de vida, se dão conta de que nunca tinham sido contempladas pelos governos anteriores. Mas continuam, em outros planos, a ser vitimas de preconceitos, disseminados pela imprensa, por religiosos conservadores. Para que superem essa alienação, para que tomem consciência não apenas dos seus interesses imediatos, mas também de como funciona a sociedade, o poder, a imprensa, as igrejas conservadores, entre tantos outros fenômenos, se torna indispensável uma consciência social ampla.
A democratização econômica e social extraordinária que o Brasil passou a viver nos últimos anos precisa se estender ao plano da consciência, da organização popular e da construção de novos representantes políticos das camadas emergentes do povo brasileiro.
Texto publicado pelo sociólogo Emir Sader no site da Carta Maior.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
BÚSSOLA POLÍTICA – FAÇA O TESTE E DESCUBRA SE VOCÊ É DE ESQUERDA, DE DIREITA OU TICO-TICO-NO-FUBÁ
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Vem aí uma nova era conservadora?

Posto abaixo artigo de meu professor na graduação e mestrado na UFRGS, o cientista político André Marenco, em artigo publicado no jornal Zero Hora, 06-11-2010.
Segundo ele, "do contrário, o ressentimento daqueles que não querem ver o “seu” imposto convertido em benefícios sociais poderá representar a usina para um conservadorismo revigorado".
Eis o artigo.
Vem aí uma nova era conservadora?
O economista americano Albert Hirschmann observou que períodos de grande mobilidade social costumam ser seguidos por ondas conservadoras, marcadas por uma retórica de intolerância em relação à mudança e a concessão de benefícios aos pobres.
O principal legado da era Lula foi, sem dúvida, políticas de transferência de renda que reduziram a pobreza absoluta de 28% para 15% da população e permitiram a ascensão social de 30 milhões de brasileiros para a classe C.
O senso comum repete o mantra que todos os governos possuem políticas assistencialistas, mas ignora a escala e magnitude que políticas redistributivas adquiriram nos oito anos da presidência Lula, correspondendo ao triplo dos recursos orçamentários em percentual do Produto Interno Bruto, destinados no governo Fernando Henrique Cardoso. Programas sociais, novos empregos, aumentos reais no salário mínimo e acesso ao crédito foram responsáveis por produzir taxas chinesas de 10% ao ano no crescimento da renda dos mais pobres durante esse período, contra apenas 3% de incremento nos ganhos dos indivíduos mais ricos. Impostos que geram receita pública, traduzida em prioridade conferida a investimentos sociais, que aumentam a renda dos mais pobres, que consomem mais, aquecem a economia, aumentando a receita pública. Esta é a equação virtuosa que a social-democracia europeia descobriu e que Lula adaptou a nossa economia.
O problema é que rancores e ressentimentos contra a transferência de renda embutida não tardam em se manifestar. No espaço entre os 83% de aprovação ao presidente e os 56% de votos conquistados por sua sucessora, podemos encontrar médicos, advogados e outros membros da classe média tradicional dizendo “já basta de financiar os pobres”, enquanto suas paredes ostentam diplomas das melhores universidades – públicas, é claro.
O aborto não foi o issue fundamental da disputa eleitoral nem terá um lugar importante no debate político dos próximos anos. Apenas uma pequena minoria de fundamentalistas religiosos perde o sono com essa questão. “Conflitos distributivos”, esse sim é o nome do jogo que separou o voto dos eleitores das regiões mais pobres em relação às mais ricas, e, nestas, dos moradores de zonas nobres em relação àqueles das periferias urbanas, e que recrudescerá nos próximos anos.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu percebeu que a convivência de rígidas hierarquias sociais com a ideologia igualitária do mundo moderno foi possível graças aos diplomas universitários: filhos de famílias abastadas frequentam as melhores escolas e com isso têm mais probabilidade de acesso a títulos universitários de maior prestígio e, por consequência, postos profissionais de status e renda mais elevados. Tudo sob a roupagem do mérito individual. Mas se os pobres começam também a ingressar nas universidades – públicas, ora vejam –, como vamos assegurar para nossos filhos o lugar que a eles cabe por direito adquirido?
É preciso recolocar os pobres no seu lugar: essa deverá ser a consigna da era pós-Lula, que ouviremos evidentemente com outras palavras, como disciplina fiscal, livre iniciativa, mercado. A experiência mais profunda e longeva de redistribuição de renda –os welfare states europeus – só foi possível por amparar-se em alianças sociais entre sindicatos de trabalhadores, classes médias e, em alguns casos, como na Escandinávia, proprietários rurais, e esgotou-se quando essa aliança se partiu. Este será o grande desafio da era pós-Lula: combinar políticas de transferência de renda com ganhos efetivos oferecidos à classe média. Do contrário, o ressentimento daqueles que não querem ver o “seu” imposto convertido em benefícios sociais poderá representar a usina para um conservadorismo revigorado.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Para enfrentar a “direitização” de parte da sociedade
Posto aqui o texto "Para enfrentar a “direitização” de parte da sociedade", de Dennis Oliveira, publicado no site da Revista Forum.
Depois de muita comemoração com a vitória de Dilma, é hora de por a razão para funcionar. Não para diminuir a importância da vitória mas para pensarmos na real situação do pais e o caminho que precisa ser trilhado para construirmos uma sociedade mais justa.
Concordo com a avaliação do companheiro blogueiro sujo Renato Rovai de que a vitória de Dilma foi da militância. O susto tomado no início de outubro teve o papel positivo de forçar a campanha a ir para as ruas e mobilizar uma coisa que estava até ficando fora de moda que é a militância. Contribuiu muito com isto a opção do candidato Serra de enveredar por um discurso mais direitista, beirando o nazifacismo, que forçou a mobilização de parcela da sociedade que, se não estavam tão entusiasmados com a candidatura de Dilma, perceberam o risco que seria a vitória do candidato Serra. Afinal, ao contrário do que uma parte da chamada extrema-esquerda dizia, os dois não eram a mesma coisa.
A vitória de Dilma foi uma derrota da mídia hegemônica. Ao contrário de algumas análises, considero que foi importante o ato contra o golpismo midiático realizado em final de setembro. Se houve algum prejuízo para a candidatura situacionista, radicalizando o confronto com a indústria midiática, também serviu para evidenciar publicamente o papel que a mídia vem desempenhando, retirando-a de um pedestal onde permanecia intocável. Apesar das manipulações matreiras que a grande mídia continuou fazendo, é evidente que ela ficou mais cuidadosa. Ela sentiu o golpe, principalmente quando percebeu que o PSDB tomou atitudes muito mais agressivas contra a “liberdade de imprensa”, como a proibição da divulgação das pesquisas no Paraná, a postura grosseira do candidato contra repórteres que lhe faziam perguntas incômodas, entre outras.
Foi também uma vitória da mídia alternativa que se espraia pelas redes virtuais, agindo como elemento de contenção das manipulações da mídia hegemônica. Graças a isto, a tentativa de transformar o episódio da agressão da bolinha de papel foi denunciada à exaustão, virou piada e desmoralizou ainda mais o candidato do PSDB. A Globo não conseguiu fazer daquilo o mesmo que conseguiu com o episódio do “dossiê dos aloprados” em 2006. William Bonner foi cuidadoso na condução do último debate da Globo (apesar da forcinha dada com o close em Serra nas considerações finais deste). Esta mesma mídia alternativa em rede alertou as possibilidades de uma “bala de prata” no final da campanha. Certamente, estas ações imobilizaram ou, pelo menos, impediram uma ação mais nefasta da mídia hegemônica nesta disputa eleitoral.
Porém, sendo gramsciano – pessimista na reflexão e otimista na ação – quero aqui fazer alguns senões nesta conjuntura. Chamo a atenção da necessidade dos movimentos sociais saírem de uma esfera extremamente institucional e investirem em um debate mais profundo sobre as suas bandeiras para enfrentar uma evidente direitização de visões ideológicas presentes em parcela significativa da população.
Os 44% dos votos de Serra não são do PSDB como parcela da mídia hegemônica quer fazer acreditar. O PSDB, como partido, saiu fragorosamente derrotado. Praticamente abandonou o seu discurso de origem, social-democrata. Do ponto de vista ideológico, virou o novo DEM. A entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à Folha de S. Paulo de terça passada é esclarecedora: “Não estou mais disposto a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história”, diz o ex-presidente. A derrota de Serra transformou o PSDB em um aglomerado de lideranças regionais mais parecendo uma confederação de novos coronéis: Aécio Neves (MG), Alckmin (SP), Richa (PR), Teotonio Vilela Filho (AL), entre outros. São políticos que constroem esquemas de alianças regionais, pouco tem a dizer sobre questões nacionais e ainda não foram submetidos a um debate nacional mais duro (exceção de Alckmin que foi candidato a presidente em 2006 e foi fragorosamente derrotado em um momento de crise no PT por conta do chamado “mensalão”).
O que a campanha de Serra deixa como rescaldo no debate político? O reforço dos sentimentos mais reacionários que ganharam visibilidade com o debate fundamentalista sobre aborto, o machismo implícito, o preconceito contra nordestino, entre outros. As pessoas que votaram no Serra não o fizeram, em sua grande parte, por uma adesão ao programa do PSDB – aliás Serra nem apresentou programa e ficou desfilando uma onda de promessas vazias, como 13º. para o Bolsa Família, salário mínimo de 600 reais, aumentar as aposentadorias, tudo que o PSDB sempre combateu.
O voto em Serra foi em parte um voto anti-Dilma, mas um anti-Dilma não por divergência com o programa do PT, e sim por um incômodo mal disfarçado por Dilma ser mulher. Já disse em outras ocasiões que Dilma – assim como Marta Suplicy – encarna um tipo de mulher que agride o sentimento machista, inclusive expresso por mulheres, por demonstrar independência, capacidade de decisão e autonomia (que é traduzido como arrogância e prepotência porque a idéia de mulher é a do ser frágil, como Marina Silva encarna).
Um anti-Dilma por preconceito pelos programas sociais do governo Lula beneficiarem uma parcela da população que era vista meramente como “mão de obra” e não “cidadãos” (daí a raiva de que elas votam e tem vontade própria).
Um anti-Dilma por raiva de um operário, nordestino e com tudo para dar errado sair da presidência com o recorde histórico de aprovação.
Um anti-Dilma por ficar evidente que estes sentimentos reacionários, machistas e preconceituosos são minoritários.
Assim, ainda há um longo caminho a trilhar pois não se pode negar a existência e a força de tais sentimentos. A questão do aborto colocada de forma absurdamente conservadora foi posta de tal forma que a tônica da discussão foi pautada apenas pelo aspecto religioso, obrigando, inclusive, a candidata a comprometer-se com exigências colocadas pelas organizações religiosas cristãs. Os preconceitos estão exacerbando-se pela rede virtual.
Se o projeto original do PSDB está em crise, as ideias mais reacionárias não. Em parte Serra perdeu porque, como disse Luis Nassif, ele como direitista fundamentalista é mais falso que CD vendido em camelô da Rua 25 de Março. Mas nada impede que outros candidatos mais afinados com este discurso retornem. E há espaços para isto.
Por isto, trabalhadores, mulheres, negros, estudantes, sem terra etc, vamos arregaçar as mangas e não ficar presos apenas a briga por ocupação de espaços institucionais.
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