domingo, 1 de junho de 2014

Mudanças

Acabo de passar por uma experiência inesquecível. Após quase dois meses envolvido em dois concursos e trabalhando, fui aprovado no concurso de professor da FURG, Campus Avançado de Santa Vitória do Palmar, abandonando o outro concurso - IF Farroupilha - no qual já havia sido aprovado na primeira fase.
Para mim é uma grande conquista, um sonho realizado após dez anos de vida docente. Questão salarial, de reconhecimento profissional, vida acadêmica, enfim, sem dúvidas representa um salto na minha carreira.
Pois eis que a prtir dessa aprovação ocorrida no dia 14 de maio passei a me preparar para esta mudança em minha vida.
O primeiro e, talvez mais difícil, foi deixar o Colégio Marista São Francisco, onde desde 2009 era professor de sociologia e filosofia no Ensino Médio. Como todo local de trabalho, tem seus aspectos positivos e negativos, mas ao longo do tempo parecem que apenas os aspectos negativos parecem existir. Na hora de sair que se começa a perceber o lado bom, até ser supreendido por uma série de fatos que ficarão para sempre na minha lembrança.
Avisei que sairia no dia 31 de maio, data do conselho de clase e mudança de trimestre, facilitando assim o trabalho do novo professor, ainda que seja uma stuação complicada assumir o trabalho de outro em andamento. Ajudei na busca de um substituto, bem como na sua seleção. Tudo resolvido, chega a última semana de aula. E, por mais que eu soubesse que tinha uma boa relação com os estudantes, nunca imaginei que pudesse ter uma despedida como a que acabou ocorrendo. Todas as nove turmas que trabalhava prepararam despedidas, com decoração, cartazes, presentes, salgados, bolos, cup cakes, refrigerantes, balões, vídeos, textos, poemas, "selfies", abraços, e o mais importante: muito carinho.
Não tenho dúvidas de que foi a experiência mais emocionante de minha vida e o maior reconhecimento que podia ter como educador e como pessoa. Não apenas como professor de sociologia e filosofia, mas como educador e ser humano. Me descobri um grande chorão, pois se tornou impossível conter a emoção frente a tanta demonstração de carinho. Ao mesmo tempo percebi a responsabilidade frente aos adolescentes, como a velha frase da raposa de Saint-Exupéry: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Aprendi na prática essa grandioza responsabilidade do educador ao cativar seus educandos. Foi uma despedida que se eu tivesse sonhado não seria metade do que foi. Não teriam os momentos, as lágrimas e emoções que tiveram.
Ainda bem que tenho uns dias para descansar e tentar me recuperar desta avalanche de emoção e carinho. Levarei para sempre a lembranaça desses momentos. Levarei para sempre esses mais de cinco anos no Colégio Marista São Francisco, com tanto aprendizado, alegria e amizades. Levarei para sempre as aulas, os debates, os trabalhos, a sala dos professores, o nosso teatro, as apresentações e acima de tudo, que foi onde passei a maior experiência emocional de minha vida.
Ora, se é um momento de mudança, essa mudança não podia ocorrer de melhor forma. Serei eternamente grato por tal alegria e tristeza ao mesmo tempo.



domingo, 27 de abril de 2014

Rolezinho em Rio Grande (?) - uma breve análise sociológica



Por Cristiano Ruiz Engelke

 No último dia 23 de abril a cidade de Rio Grande parece ter passado por um “momento histórico”, como se tivesse adentrado na modernidade. A abertura de um shopping center simboliza o moderno em contradição ao tradicional, como uma necessidade de se perceber como avançado, inserido no mundo global. O Brasil é marcado por essa dicotomia moderno X tradicional, tão bem explicada pelo sociólogo José de Souza Martins. Se por um lado há representações da modernidade (consumismo, tecnologia, grandes centros urbanos e shopping centers), há também inúmeras características tradicionais que se mantém (a estratificação em classes sociais, o mundo rural ou periférico, o “atraso” tecnológico).

De acordo com Martins, “a modernidade é, num certo sentido, o reino do cinismo: é constitutiva dela a denúncia das desigualdades e dos desencontros que a caracterizam. Nela o capitalismo se antecipa à crítica radical de suas vítimas mais sofridas. Por isso, a modernidade não pode deixar de conter (e manipular) reconhecíveis evidências dos problemas e das contradições de que ela é a expressão”. Portanto é neste “reino do cinismo” que as relações sociais se desenvolvem, principalmente em espaços públicos, como shopping centers.

Os shopping centers são a própria metáfora de nosso mundo atual. Como bem descreve o importante sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que hoje vivemos em um mundo marcado pelo individualismo e consumismo, com enfraquecimento dos laços sociais, onde o local que representa tudo isso, ou ainda o “não-lugar”, é o shopping center. Não-lugar, pois é um vazio, deslocado do espaço urbano, da comunidade. Nas palavras de Bauman, “esse ‘lugar sem lugar’ auto-cercado, diferentemente de todos os lugares ocupados ou cruzados diariamente, é também um espaço purificado. (...) Os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma ‘realidade real’ externa pode dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança”.

Assim temos duas características importantes: a “entrada no mundo moderno”, ainda que de forma cínica, e a constituição de “não-lugares”, com sua limpeza, segurança e exclusão. Creio que a partir daí podemos divagar sobre supostos rolezinhos anunciados em Rio Grande e a preocupação por parte da administração do shopping, bem como de seus frequentadores. É o escancaramento do cinismo da modernidade do qual trata José de Souza Martins. O mesmo autor nos ajuda com outro ponto acerca da modernidade: “A melhor expressão de nossa consciência crítica da modernidade é o deboche, não a reivindicação social nem a crítica social propriamente dita, que poderia levar a um certo controle dos rumos da modernização em nome dos interesses sociais dos que seriam por ele prejudicados”.

Os rolezinhos nada mais são que expressão desse deboche! Uma sociedade que é marcada pelas diferenças sociais e que acredita que esses “não-lugares” não podem ser ocupados por quem não tem as características condizentes, o que significa o que Pierre Bourdieu chamava de “regras de distinção social”, as quais estão claras e devem ser respeitadas, nem que seja apresentando a carteira de identidade.

Uma sociedade com preconceito social histórico tem muita dificuldade para lidar com a inclusão social (principalmente do consumo) das classes até então excluídas. É como se estes não soubessem “se colocar no seu lugar”. Estes eventos representam uma perturbação da ordem? Pode ser e este é objetivo. Percebo uma mensagem semelhante a um grito de socorro:

- “Ei, estamos aqui, nós existimos e queremos ser valorizados e respeitados!”

Evidentemente que muitos se incomodam, mas acima de tudo essas “novidades” põem em evidência os conflitos sociais seculares que ainda persistem, reforçados pela inclusão de uma parcela significativa da sociedade. Parcela esta que parece ter que "saber o seu lugar", que é percebida como estranho, ainda que esteja em um estabelecimento ao lado de seu bairro

Mesmo que tenhamos uma democracia consolidada em nosso país, ainda temos um forte “autoritarismo social”, definido por Evelina Dagnino como “formas de sociabilidade numa cultura autoritária de exclusão que subjaz ao conjunto das práticas sociais e reproduz a desigualdade nas relações sociais em todos os seus níveis”. É contra esse autoritarismo social que os rolezinhos “gritam”, e que devíamos observar em vez de revoltosamente exalar preconceito e mais autoritarismo.

Enfim, deixo a reflexão para que, em vez de apenas reclamar de forma preconceituosa, pensemos com mais calma, com base na alteridade e na construção de uma sociedade mais justa para todos, por mais difícil que seja, com ou sem shopping centers e rolezinhos (que ainda nem aconteceram!).


Referências:

ALVARES,S. DAGNINO E. ESCOBAR. (org.). Cultura Política nos Movimentos Sociais Latino-americanos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples. São Paulo: Contexto, 2008.

sábado, 26 de abril de 2014

O eterno retorno (do blog!)



Mais uma vez estou tentando retornar às atividades do meu blog. Agora foram quase dois anos de parada, inclusive de esquecimento deste espaço. Agora de novo estou de volta. Espero poder manter por mais tempo e que haja algum público senão não faz sentido ter um blog (aliás, ainda faz sentido ter um blog?)
Estou envolvido em uma série de atividades que me deixam sem tempo, mas basta um mínimo de organização para escrever ou compartilhar textos neste espaço. Nesse meio tempo já fui e deixei de ser professor na UFPel - brilhante experiência - bem como me considero diferente, inclusive me chamando atenção vários dos textos do meu próprio blog: alguns positiva e outros negativamente, mas fazem parte de minha história e permanecerão, sendo a partir de agora acrescidos de novos textos.
Sigo assim mais uma etapa do "eterno retorno"(como diria Nietzsche), como um constante ir e vir deste blog. 
"A eterna ampulheta da eexistência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Freidrich Nietzsche
Por isso estou voltando, contando que consiga produzir algo que mantenha este blog vivo, mas também com esperança de que sirva como espaço de informação, opinião e discussão. Por isso preciso da ajuda dos leitores, com comentários, sugestões ou nem que seja para falar mal de mim e de meus textos!


Abraços

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Hobbes, Rousseau e as eleições municipais





É inacreditável estarmos em pleno 2012 e ainda estarmos na perspectiva de ficarmos alheios aos avanços democráticos em nosso município. Sim, democracia, algo estranho para alguns, indiferente para outros, mas fundamental para todos! Democracia e cidadania são temas que aparecem sempre nos períodos eleitorais, mas parecem sair de cena após encerrados os pleitos. Democracia, o governo do povo, não é apenas o exercício do voto. Nossa Constituição já nos alerta no parágrafo único de seu artigo primeiro: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes ou diretamente , nos termos desta Constituição”.
Assim, é evidente que o poder é do povo, mas que, infelizmente fica à margem das decisões justamente naquele espaço mais próximo, nas decisões locais, na sua rua, no seu bairro, no seu município. A ideia de que o prefeito é o detentor de todo o poder, das decisões é uma visão totalmente ultrapassada, mas que ainda se mantém em Rio Grande.
Por isso, inevitavelmente, acabo buscando na filosofia política uma explicação que nos remete aos séculos XVII e XVIII, na diferença entre as teorias contratualistas de Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. Hobbes, ao defender o absolutismo inglês, demonstra a importância de um governo forte (o Leviatã) que detém um poder total, dividindo a sociedade em soberano e súditos. Lamentavelmente ainda hoje há quem acredite ser esta a forma mais adequada de governar. Felizmente, Rousseau, filósofo de grande importância para desencadear a Revolução Francesa, nos mostra justamente o oposto: a necessidade de não termos soberano e súditos, mas sim que sejam todos soberanos, que o governo seja da própria sociedade, com participação!
Sim, participação é a grande questão. Não apenas dizendo que se ouve as pessoas, mas sim com instrumentos concretos e transparentes de participação, possibilitando o exercício de democracia direta, afetando diretamente nas decisões de políticas públicas locais, além de gerar educação política aos cidadãos e cidadãs.
Não creio que devamos nos perceber apenas como súditos, mas sim como cidadãos e cidadãs, não como meros objetos da política, mas sim sujeitos, aqueles que constroem políticas em conjunto, tendo como resultado uma sociedade mais democrática mais justa. A escolha está aí, temos uma eleição para decidir que contrato social queremos: o de Hobbes ou o de Rousseau!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Praia do Cassino como espaço público


* artigo enviado para o Jornal Agora no dia 12/01/12

Nos últimos dias tenho acompanhado um acalorado debate neste jornal acerca do movimento na praia do Cassino e suas consequências. Além de cartas no jornal impresso, discussões prosseguem em comentários no site deste jornal.
Acredito que seja importante fazermos uma análise um pouco mais ampla, diria até mesmo sociológica. Creio que podemos inicialmente distinguir dois aspectos: o comportamento social e a atuação do Estado.
Inicio pela atuação do Estado. É senso comum que o Estado tem dificuldades em fazer funcionar coisas simples. Ele deve ser cada vez mais organizado e assim também buscar uma ordem social. Quando falo em Estado me refiro à instituição de poder, no caso específico em sua esfera estadual (polícia militar) e principalmente municipal (planejamento, organização, fiscalização, etc.). É evidente que falta fiscalização, organização e planejamento e isto deve ser cobrado das autoridades competentes, principalmente prefeitos e vereadores.
Algumas alternativas simples como uma fiscalização realmente efetiva, uma padronização dos trailers, uma fiscalização do trânsito, de som, de agressão ao meio ambiente, e até mesmo se pensar com seriedade o fim do trânsito de automóveis na praia seriam algumas alternativas. Sempre se citam algumas dessas possibilidades, todas elas dependendo das autoridades, de cumprimento, criação ou alteração de leis. Portanto deixando-se apenas ao Estado a responsabilidade de resolver o problema – o que é sua atribuição.
O segundo ponto que acredito que seja a raiz do problema vai além do papel do Estado: a sociedade. Os problemas enfrentados em nosso balneário são muitos semelhantes a encontrados em outras praias, cidades, grupos e até mesmo redes sociais: o individualismo, a ética do “jeitinho” e a dificuldade de compreender o espaço público.
O individualismo é característica cada vez maior no mundo atual e faz com que percamos os laços sociais, a não ser para garantir a nosso sucesso, a nossa visibilidade como indivíduos, pois somos movidos pela ânsia individualista de consumir, de estar olhando apenas para seu próprio umbigo. Junta-se a isto a utilização do carro como forma de status, de diferenciação, em vez de ser apenas um meio de transporte. O carro e o seu som deveriam ser para transportar e entreter as pessoas e não para chamar atenção dos outros.
Para agravar o individualismo temos a marca de uma ética do “jeitinho”, do “sabe com quem tá falando”, que só reforça o individualismo e a consequência falta de coletividade.  Este comportamento perpassa os mais variados locais e formas, sempre fazendo com que se busque a esperteza, a vantagem, em lugar do justo, do correto.
Acrescento ainda como um elemento crucial a confusão histórica em nosso país entre o público e o privado. A compreensão do Brasil como uma res publica, isto é, uma coisa pública, ainda é um processo em difícil construção. A sociedade, de maneira geral, ainda tende a perceber o público como algo que é seu: “se é público é de todos, portanto é meu”! Errado, se é público é de todos! Assim acredita-se que pode andar com seu carro (ou estacioná-lo) onde quiser e como quiser, inclusive bebendo, pois é público; que pode ouvir o som que quiser, pois é público; que se pode sujar, deixar latas, garrafas, destruir a praia, pois é pública, e por aí poderia seguir citando inúmeros exemplos. Ainda neste ponto, discordo dos argumentos do tipo “os incomodados que se retirem”, pois é uma alternativa que despreza a noção de espaço público.
Para concluir, creio que é sim necessária uma maior fiscalização, mas é essencial uma conscientização, com ética e respeito, percebendo que a praia é um espaço da natureza e público, de todos e para sempre. Reforço que devemos cobrar das autoridades, mas mais que isso repensar as nossas atitudes para que assim possamos realmente ter um Cassino para todos.
 *Cristiano Ruiz Engelke

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Redes sociais: pescaria de tarrafa ou de molinete?

Reproduzo texto do site do Le Monde Diplomatique Brasil, de autoria de Carlos Fernando Galvão, que trata dos movimentos sociais organizados pelas redes sociais. Muito boa análise:

http://diplomatique.uol.com.br/acervo.php?id=2984

Redes sociais: pescaria de tarrafa ou de molinete?

Visualizamos pelo mundo diversas manifestações pró-redes sociais, e o quanto elas possibilitam uma revolução - não política, mas social. A riqueza desse movimento é a não-existência de lideranças visíveis, partidos políticos ou algo que o valha. Seria, pois, um movimento de reivindicação espontânea da cidadania. por Carlos Fernando Galvão

(Manifestante egipício na Praça Tahir, onde inúmeras manifestações ocorreram no ínicio de 2011 e culminaram com a queda do presidente Hosni Mubarak).

A vida é movimento e pausa, tal como uma bela canção e é alterada pelo que fazemos, notadamente, de modo coletivo. Até que ponto as políticas públicas de redistribuição de renda têm contribuído para melhorar a vida e a auto-estima do cidadão brasileiro, como um todo, e das administrações públicas, em particular? Será essa alteração mensurável ou, ao menos, passível de ser analisada e interpretada, ainda que de um modo um tanto intuitivo? Se essa alteração puder ser medida ou percebida ou, ao menos, de algum modo, intuída, poderíamos pensar na criação de um provisoriamente chamado de Indicador Geral de Felicidade Urbana? Sonhos de uma noite de verão? Bem...



Daniel Kahneman, psicólogo e Nobel de Economia em 2002, junto com um grupo de economistas estão criando o Índice de Felicidade Nacional ou Conta de Bem-Estar Nacional que, em linhas gerais, tem o objetivo de medir a satisfação das pessoas com suas vidas. A pesquisa foi financiada pelo Instituto Gallup e pelo governo norte-americano. As camadas mais ricas da população se declaravam, à época, (hoje, depois da crise de 2008-2009, certamente essa percepção já foi alterada) mais felizes do que as mais pobres, mas até determinado nível, após o qual a satisfação estancava. Para Richard Layard, da London School of Economics, a explicação para o paradoxo é que no início, quando enriquecemos, ficamos felizes, mas depois nos acostumamos. Outro fator para esse paradoxo, segundo Layard, é que as pessoas tendem, não raro, a medir sua felicidade em relação às demais pessoas e não a partir de sua própria realidade. Na pesquisa de Kahneman, constatou-se, uma vez questionados sobre se preferiam ganhar US$50 mil anuais, por exemplo, enquanto as outras pessoas ganhariam US$25 mil, ou se preferiam ganhar US$100 mil, enquanto os outros ganhariam o dobro, a maioria dos entrevistados optaram pela primeira opção. Ou seja, em geral, as pessoas preferem ser mais pobres se foram relativamente mais ricos que os demais. Lamentável, mas essa é a realidade do ser humano, no geral. No entender de Layard, isso ocorre por um excesso de rivalidade: se o padrão é o outro, a competição torna-se infinita, bem como o trabalho e o consumo – e, complementamos, o que faz com que as pessoas esqueçam-se, em parte, de suas vidas e vivam as dos outros e isso não traz felicidade.

Para tentar entender melhor o mundo do consumo, os economistas criaram a “propensão marginal a consumir”, que mede o quanto se incrementa no consumo de uma pessoa quando há um acréscimo em sua renda disponível líquida, expressa na unidade monetária com que essa pessoa lida, no dia-a-dia. Essa propensão se define como a variação do consumo na nova renda disponível e é calculada matematicamente. Deixando os cálculos para os economistas matemáticos é, obviamente esperado que o valor desse propensão seja mais alto em economias mais desenvolvidas. No caso brasileiro, desde o início dos anos 90, com a implantação do Real como moeda nacional, esse valor tem crescido e teve seu maior crescimento nos anos 2000 (não se sabe até que ponto tal crescimento se manterá sem, por exemplo, investimentos em infra-estrutura e educação, mas essa discussão fica para outro artigo).


O filósofo Vladimir Safatle mostrou, em artigo recente, que “por mais que economistas gostem de dizer o contrário, a ação econômica é baseada em sistemas de crenças e expectativas cuja racionalidade é fundada em fortes disposições psicológicas ‘irracionais’ – pois estão ligadas a fantasias” e alerta para o fato de que sociedades emergentes, como a brasileira, “crescem com alta desigualdade de renda, o que com que uma parcela mínima da população, com poder aquisitivo exorbitante, puxe para cima a cadeia de preços”. Isso, é claro, contraria uma idéia comum dos economistas em sua Teoria Geral da Formação de Preços, qual seja, ainda nas palavras de Safatle, “a mudança no preço de sua sessão não foi o resultado de alguma nova conformação das dinâmicas de oferta e de procura. Ela foi, na verdade, a descoberta de que, em países com alta concentração de renda, certas pessoas estão dispostas a pagar mais simplesmente devido à crença de que as coisas caras foram feitas para ela”.


Ora, realizando um pequeno e rápido exercício de reflexão sobre o que nos traz a pesquisa de Daniel Kahneman e estabelecendo uma ponte com a idéia de Vladimir Safatle, temos que os seres humanos, coletivamente, são movidos por interesses setorizados e egoístas.


Se conseguirmos um dia criar alguma coisa parecida com um Indicador Geral de Felicidade Urbana, talvez possamos retrabalhar nossos valores individuais e coletivos, voltando-os para fins mais nobres do que ganharmos rios de dinheiro, independente da vida alheia que agoniza, aqui e alhures, ou de sermos uma ou vivermos a vida das celebridades, essa entidade social tão perseguida quanto deletéria à vida numa sociedade que se proclama solidária e justa, ou mesmo do que termos poder, não como um instrumento afetuoso de transformação social, mas poder pelo poder, como um meio de nos sobrepormos ao outro que, sem ele, fica ou se sente humilhado e procura, de todos os modos, o mesmo caminho, realimentando esse círculo vicioso. E, convenhamos: quem segue os mesmos caminhos tende a chegar nos mesmos lugares. E há tantos lugares bonitos e agradáveis para visitarmos ainda...


O que fazer, então?


Nos últimos anos, a grande imprensa, vários políticos, diversos agentes econômicos, inúmeros setores dos movimentos sociais, enfim, praticamente toda sociedade, dita organizada, em vários lugares do planeta, vem divulgado, com grande entusiasmo, a boa nova das redes sociais e seu poder de mobilizar as pessoas em nome de uma causa. Muitos dos que comungam com este entusiasmo atribuem à atuação dessas redes o que de mais parecido há com uma revolução. Não uma revolução política, mas social, no sentido de que, e essa seria a riqueza desse movimento, não há, ou não haveria, lideranças visíveis, partidos políticos ou algo que o valha. Seria, pois, um movimento de reivindicação espontânea da cidadania.


A chamada “Primavera Árabe”, os “Indignados” da Espanha ou os explorados do “Ocupem Wall Street”, todos esses movimentos da cidadania teriam nascido das condições sociais adversas de cada país e, sem exceção, seriam, segundo os entusiasmados acima referidos, característicos da tal espontaneidade, ao largo e por cima da política tradicional, sempre entendida, quase que exclusivamente, como sinônimo das ações partidárias ou, quando muito, do terceiro setor (ONGs, sindicatos etc.), como se ações diretas da cidadania não fossem políticas, mas apenas “sociais”, como se não houve alternativas. A quem interessa essa idéia?


Muitos, alguns por ingenuidade, outros, por desinformação, uns tantos por interesse mesmo, criticam, no geral, a assim chamada Democracia Direta (referendos e plebiscitos), além de mostrar verdadeira ojeriza quando alguém fala em Democracia Participativa ou, no máximo, usam esta expressão quando estão a se referir ao voto e às muitas passeatas, todas importantes, mas insuficientes, por si mesmas. A luta por espaços de poder é uma constante na vida humana, desde tempos imemoriais. Não existe vácuo, em se tratando de política e quem não gosta de política, feliz ou infelizmente, é governado por quem gosta, ainda que não deseje isso ou mesmo renegue tal fato; omitir-se é passar um cheque em branco para quem, talvez, não proponha e/ou realize coisas que estejam de acordo com nossas idéias e concepções de mundo e de vida social. Aqui, certamente, está uma origem possível, dentre outras, do movimento planetário que descobriu as redes sociais como instrumento de protesto e mobilização: uma espécie de bastião por um outro mundo, quem sabe, desglobalizado ou, ao menos, mais justo nesse processo. Alguns afirmam que a globalização, tal como foi e é conduzida, esvaziou a democracia de sua substância e transformou nossas vidas em um produto subsidiário das vontades dos tais “mercados”. Será? Até quando?


A necessidade de criação desse outro mundo está levando muitas pessoas a questionar as formas tradicionais de administração pública e de fazer política e as está empurrando, por assim dizer, a tomar as iniciativas de realizar os protestos que estamos vendo, diariamente, nos meios de comunicação. Importante? Importantíssimo. Que continuem e cresçam tais iniciativas. Mas...


Se a tal “revolução social” ficar nisso, será mais uma frustração. Reivindicações pontuais, sem maiores objetividades e sistematizações, sem líderes identificáveis, com poucas metodologias (ou nenhuma) que realizam uma democracia participativa e com algumas leis que ainda são bonitos enfeites discursivos na boca de nossas lideranças ou em compêndios jurídicos e teses acadêmicas, nada disso mudará, real e estruturalmente, o nível de consciência política e de ações públicas que melhorem, para valer, a vida política. O livro “Democracia: do conceito à prática, da representação à participação”, Editora Claridade, lançado em 2010, de nossa autoria, procura dar uma resposta possível à questão metodológica da participação popular na vida urbana, quer dizer, procura oferecer à cidadania uma resposta viável à pergunta: como realizar uma verdadeira democracia participativa, não estando aparelhado por nenhum grupo de poder e sem demagogia e, ao mesmo tempo, sendo eficaz e solidário?

Incensar esses “movimentos espontâneos” e desideologizar as lutas políticas, confundindo-as com ações criminosas ou, quando há condescendência, com idéias ultrapassadas, é um desserviço às causas maiores, que lutam pela concretização, por exemplo, do terceiro lema da Revolução Francesa (ainda!): a fraternidade. Sim, porque uma disputa política se faz com a cabeça, mas também com o coração! Gandhi dizia que o conhecimento só serve para tornar melhor a vida do Homem, mas ao mesmo tempo, de nada adiantaria a cabeça estar cheia, se o coração está vazio.

Ideologia não é um repertório de conteúdos pré-fabricados e radicalizados, mas uma espécie de gramática de engendramento de sentidos sociais. Só esse tipo de ideologia, realizada com a cabeça e com o coração, com respeito pelo outro e baseada em princípios democráticos, fará a verdadeira revolução política (e pacífica) que precisamos e merecemos. As redes sociais, que devem ser incentivadas, não têm, contudo, condições de pescar de tarrafa, por assim dizer, como seria o ideal, arrastando multidões para ações políticas concretas, pelo tempo necessário, ou seja, para além da moda que, por definição e natureza, logo passará. A pescaria não pode ser de molinete, sob o risco de alimentar apenas alguns de nós e não a humanidade!


Carlos Fernando Galvão

Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Presidente da ONG Cidade Viva

sábado, 29 de outubro de 2011

Nós nascemos para correr?

Ainda que tenha uma infinidade de outros temas para discutir, hoje resolvi sair de meus temas usuais (política, sociedade, cidadania,..) e fazer apenas a postagem do vídeo do jornalista Christopher McDougall, autor do livro "Nascido para Correr".
http://www.ted.com/talks/lang/por_br/christopher_mcdougall_are_we_born_to_run.html
 
Para quem acha que não pode ou não consegue correr muito tempo, se não começar é que não vai conseguir!
 
Vamos lá!!
Bom vídeo e depois boa corrida!!